segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Quebra-cabeças (crônica)


Outro dia fiquei observando as pessoas ao meu redor e pensei que o ser humano é, no fundo, um enorme quebra-cabeça. Complexo, cheio de nuances, e quase nunca montado conforme a imagem da caixa.


Há quem pareça inteiro, mas logo percebemos que falta alguma peça. Às vezes é o cérebro: não pensam por si, repetem discursos alheios, se perdem facilmente e se deixam conduzir como quem não segura o próprio mapa. Outras vezes é o coração. Vivem no modo automático, sem empatia, frios não por escolha, mas por defesa.


Também existem os que têm olhos, mas não enxergam. Olham sem olhar. Evitam o contato direto, talvez porque sabem que um olhar atento revela mais do que mil palavras. É curioso como, muitas vezes, basta encarar alguém por alguns segundos para entender quem ele é — ou quem tenta ser.


Há ainda os que não sabem usar as mãos e os braços. Não abraçam, não afagam, mantêm uma distância segura. Fico pensando se não é porque nunca aprenderam o gesto simples do afeto, aquele que se transmite sem manual, de corpo para corpo.


E existem os que não têm pernas. Permanecem sempre no mesmo lugar, recusam-se a caminhar em direção ao outro, não arriscam dividir o caminho. Preferem a imobilidade ao esforço do encontro.


Lidar com pessoas assim não é fácil. São pessoas que não desabrocharam, que não se deixam tocar e tampouco aprenderam a tocar. Tocar, aqui, não é só encostar — é falar, se expressar, dizer o que sente e o que pensa.


No fim, nunca sabemos exatamente o que se passa dentro do outro. Se diz verdades ou mentiras, se se engana ou se apenas ainda não encontrou todas as próprias peças.


Talvez todos nós sejamos, em alguma medida, quebra-cabeças em construção. E talvez o maior desafio não seja completar a imagem, mas aceitar que algumas peças só aparecem quando temos coragem de nos aproximar.