segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Os abacaxis da vida



Foi no meio do almoço, entre a lentilha, passas  e uma fatia generosa de abacaxi, que o pensamento veio. A fruta estava doce, no ponto certo, e fez aquele contraste perfeito com o sal do prato. Um equilíbrio que meu marido dispensa, mas que eu chamo de harmonia de sabores.


Normalmente pensamos no processo simples: comprar, descascar, fatiar e comer.

A expectativa é quase sempre a mesma: não nos machucarmos ao retirar a coroa espinhenta e, depois, consumir uma fruta doce 


Enquanto mastigava, pensei em como costumamos simplificar demais a ideia de “descascar um abacaxi”. 

Mas… e na vida?

O que seria descascar um abacaxi?


Comprar?

Na minha modesta opinião, na maioria das vezes não compramos abacaxis — nós os recebemos. Seja na vida pessoal, seja no ambiente de trabalho.


Descascamos?

Sim. Procuramos descascar logo, retirando primeiro, de alguma forma, a coroa espinhenta. Depois, pouco a pouco, vamos removendo as cascas e aqueles pequenos “olhinhos” que insistem em ficar.


Fatiamos?

Fatiar os abacaxis da vida pode ser complicado. Às vezes depende da ajuda de terceiros; outras vezes, não. Há situações em que a missão não pode ser compartilhada — como certos trabalhos que exigem a nossa expertise ou problemas cuja solução só nós podemos dar.


Comemos?

Sim, comemos.


Sozinhos?

Nem sempre. Muitas pessoas se aproveitam do fato de que a parte mais difícil já foi feita e chegam apenas para degustar as fatias. Algumas ainda dizem que foram elas que “descascaram” o abacaxi.


E como obter fatias realmente dulcíssimas?

Talvez poucos percebam que, entre receber o abacaxi e descascá-lo, é preciso respeitar o tempo de amadurecimento. Esse tempo faz toda a diferença: menos acidez, mais doçura.


O abacaxi que comi hoje no almoço amadureceu no tempo certo. Ele trouxe equilíbrio à minha refeição, misturando o doce e uma leve acidez da fruta com o sal dos outros alimentos. Foi um momento simples e prazeroso.


Descascar os abacaxis da vida é isso:

olhar com atenção para a “fruta”, perceber se ela precisa amadurecer e, ao final do processo — só ou acompanhado — poder, enfim, saborear as fatias doces.

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